
Que ao menos acabe assim de novo
Esta semana finalmente tem início o maior desafio do ano – o único, a se considerar o discurso dos dirigentes do Palmeiras, para quem o Paulista e a Libertadores eram pedras no caminho. O elenco de série B – novamente palavras deles – começa a tentar resgatar o Palmeiras mais uma vez do inferno a que os incompetentes de diretoria, comissão técnica e elenco passado (alguns ainda presentes) nos legaram. Com isso, traremos alguns textos de aquecimento para esta competição que se arrastará até o fim do ano, mas que, esperamos, terá final feliz bem antes disso.
Começaremos lembrando a outra série B que disputamos, a de 2003 (houve ainda algumas Taças de Prata nos anos 80, mas ali não houve rebaixamento, e sim uma péssima classificação nos Paulistões que eram classificatórios para o Brasileirão). Aquele campeonato foi bem diferente do que teremos agora – eram 24 equipes duelando por 2 vagas, em torneio com três fases no início das quais a pontuação era zerada. Agora são 4 clubes a menos e 2 promovidos a mais. Não pode dar chabu, ou pode?
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O cenário de 2003
Com um elenco que no papel não era ruim, e que fora semifinalista do Rio-SP e da Copa dos Campeões, mas era repleto de laranjas podres, o Palmeiras passa vexame no Brasileiro e é rebaixado na última rodada, quando vencer o Vitória fora de casa bastaria para a salvação. Muitos jogadores deixaram o clube após o vexame, entre eles antigos ídolos como Arce. Levir Culpi naturalmente também perdeu seu emprego.
O início de 2003 trouxe eleições, nas quais Mustafá Contursi se rerrerrerrerrelegeu. A manutenção da diretoria parecia indicar que ao menos não haveria mudanças bruscas de planejamento – mas havia algum? Até aquele momento, só havíamos contratado o técnico Jair Picerni, o zagueiro Índio e o meia Adãozinho.
O Palmeiras até fez um Paulistão decente, em que eliminou nas quartas o São Caetano então vice-campeão da América. Na semifinal, fez um bom primeiro jogo contra o Corinthians (2 a 2), mas os inúmeros desfalques para o jogo de volta pesaram, e o time caiu por 4 a 2 num placar a ser até comemorado, pois antes dos 20 minutos já estávamos levando 3 a 0 no lombo. A queda provocou uma pequena reformulação no elenco.
Restava a Copa do Brasil antes do mergulho no desconhecido. Mas antes não fosse assim: a meros três dias da estreia na Segundona, o Palmeiras deu um vexame histórico ao sofrer a maior goleada de sua história no Palestra Itália: os 7 a 2 do Vitória.
Paradoxalmente, esse resultado ajudou demais na série B. Picerni pediu as contas após o massacre mas teve respaldo para ficar, e a partir daí começou a fazer uma série de mudanças que seriam essenciais para o sucesso mais à frente. A principal delas, a entrada dos jovens atletas da base, recém saídos do vice-campeonato da Copinha. Uma solução barata, ao estilo de Mustafá, mas que dessa vez deu certo.
A campanha, jogo a jogo
1. Brasiliense 1 x 1 Palmeiras
A estreia contra o vice-campeão do Brasil não podia ter começado pior: com cinco minutos, Iranildo fez de falta. Outra goleada a caminho? Desta vez não, em parte graças à estupenda atuação de Marcos (confira a defesa que ele fez a 1:30 do vídeo acima).
No intervalo, a mudança que talvez tenha sido o símbolo da passagem do fracasso de 2002 para o sucesso de 2003: saiu Zinho, entrou Vágner Love. E foi o moleque que, no fim do jogo, fez o gol chorado do empate.
Foi a última partida do multicampeão camisa 11 vestindo verde, ele que havia brigado com Picerni e rumou para o Cruzeiro, para somar mais um Brasileirão a seu brilhante currículo. Foi também a estreia de Marcinho Guerreiro.
E foi a última vez que Vágner Love começou uma partida do banco de reservas.
2. Palmeiras 1 x 1 América-RN
O Palmeiras debutou em casa numa noite gelada de sábado, para um público aquém do que teria depois – foram somente 8000 testemunhas. O time havia mudado bastante – havia vencido o Vitória por 3 a 1 em Salvador no meio da semana, na volta da Copa do Brasil. Mas perdeu um caminhão de gols e viu Éverton abrir o placar já aos 37 minutos do segundo tempo. Uma derrota incrível só não se concretizou porque no minuto seguinte Vágner Love – já xodó da torcida – salvou o time novamente, ao marcar de cabeça.
Naquela partida, houve duas estreias: o atual corintiano Alessandro, que veio como parte do pagamento de uma dívida do Flamengo, e Élson.
3. Náutico 2 x 1 Palmeiras
A terceira rodada acabava e o Verdão ocupava a 20ª posição. Foi a primeira das três derrotas em todo o campeonato, todas de virada: aqui, Thiago Gentil abriu o placar no primeiro tempo, mas no segundo Kuki e Jorge Henrique viraram. No pior momento do time na competição, o Palmeiras saía dos Aflitos… aflito.
4. Palmeiras 4 x 0 São Raimundo
Demorou, mas enfim o Verdão conquistava sua primeira vitória na competição, e contra um time que estava em quarto. Naquela tarde, o público já subiu para mais de 14000 pagantes, que viram Diego Souza marcar três vezes (uma delas no fim do primeiro tempo, o gol que abriu o placar). O outro gol, o segundo da partida, foi de Daniel – o estreante do dia.
A vitória categórica foi importante não só pelo início da reação alviverde, mas principalmente porque a partir dali a fanática torcida passou a entrar de corpo e alma na competição.
5. Caxias 1 x 4 Palmeiras
A primeira vitória longe de casa, que levou o Verdão ao sétimo lugar, foi a partida menos acompanhada de toda a campanha: nenhuma rádio paulistana cobriu a peleja do Centenário.
Os poucos que a puderam acompanhar pela internet, porém, nem chegaram a sofrer: Vágner Love abriu o placar com menos de um minuto. Antes do intervalo, ele faria o segundo e Anselmo o terceiro. O mesmo Anselmo ampliaria no segundo tempo, e o gol de honra do Bepe ficou a cargo de Helinho.
6. Palmeiras 1 x 1 CRB
Depois de duas goleadas, parecia que o time engrenara. E com isso 24.000 torcedores foram ao Palestra, apenas para perceber que o Verdão continuava o de sempre: aquele time que, quando menos se espera, decepciona.
A equipe jogou muito mal, mas conseguiu abrir o placar no segundo tempo com Anselmo. Seria o típico jogo que “valeu pelos três pontos”, mas nem isso aconteceu – a 10 minutos do fim, Marquinhos empatou, e se o juiz não tivesse ignorado um pênalti cometido por Leonardo, podia ter sido ainda pior.
Vale dizer que esta partida marcou a estreia de Lúcio, além de um dos inúmeros retornos de Pedrinho.
7. Santa Cruz 2 x 2 Palmeiras
Enfim, a TV aberta entrou em campo. A Record contratou Luciano do Valle e Mauro Beting e, a partir desta rodada, todas as partidas fora do Palmeiras tiveram transmissão ao vivo (o Botafogo foi acompanhado por Oliveira Júnior e Roberto Porto, mas não nessa rodada).
E o debute foi em um jogo difícil, contra o então vice-líder. O time se virou bem com a pressão nos primeiros 45 minutos inteiro – mas não nos acréscimos, quando Neto abriu o placar. Mas o segundo tempo do Verdão foi quase perfeito; houve muitas chances até a virada, com Alceu e Vágner Love. Depois, um pênalti em Thiago Gentil – porém este o juiz não marcou. E, quando a torcida se preparava para comemorar a vitória, Roberto Santos botou água no chope verde.
O empate deixou um gosto um pouco amargo. Mas, ao mesmo tempo, mostrou que o time começava a entender o que era a série B, e que seria um concorrente muito forte.
8. Palmeiras 5 x 0 Mogi Mirim
Foi a terceira goleada nos últimos cinco jogos, definida aos 40 do primeiro tempo. Àquela altura, Love já tinha feito o primeiro, mas foi naquele minuto que o lateral do Mogi cometeu pênalti e recebeu cartão vermelho.
Aí ficou fácil: Love converteu a penalidade e o Palmeiras foi com uma bela vantagem para o intervalo. No segundo tempo, não teve dificuldade para fazer mais três (Magrão, Muñoz e, nos descontos, Love fechou sua tripleta).
O Palmeiras fechava a rodada com o melhor ataque e o artilheiro do campeonato, mas ainda estava na sétima posição.
9. Palmeiras 0 x 0 Botafogo
Era obviamente o jogo mais aguardado do campeonato, mas foi um dos mais decepcionantes. Ambos os times jogaram mal, e foram raras as oportunidades. Apesar de jogar em casa, o resultado foi até menos ruim para o Verdão, que teve Daniel expulso ainda no primeiro tempo.
Foi a única partida de toda a série B que o Palmeiras passou em branco.
10. América-MG 0 x 3 Palmeiras
O placar elástico engana um pouco: o destaque verde na partida foi Sérgio, que substituiu Marcos naquela noite. O goleiro fez ótimas defesas e parou o ataque do Coelho, que pressionou muito – basta dizer que o camisa 9 era uma jovem revelação de nome Fred.
Como quem não faz toma, o Palmeiras teve quatro ou cinco chances, e as aproveitou muito bem: Alceu, Daniel e Anselmo encaminharam a boa vitória.
11. Palmeiras 2 x 1 Joinville
Em uma das duas partidas que o Palmeiras mais contou com o “apito amigo” (a outra foi contra a Lusa), o Joinville reclamou barbaridade, mas no fim os gols de Lúcio, logo no começo, e Vágner Love, no fim do primeiro tempo, serviram para bater o JEC, que pediu vários pênaltis, mas só descontou com Didi (aquele ex-Corinthians) no fim.
Enfim o Palmeiras se assentava na tabela, passando a ocupar a vice-liderança, somente atrás do Botafogo.
12. Anapolina 1 x 2 Palmeiras
Que me desculpem os leitores de Anápolis, mas nenhuma partida teve tanta cara de série B como essa. A Xata era um time médio até para os padrões goianos, e ter que visitar o Jonas Duarte foi um dos símbolos daquele ano.
Pior, o Verdão saiu perdendo: o gol de Patrick foi o único do primeiro tempo. Mas, após o intervalo, a técnica e o preparo físico fizeram a diferença, e o Palmeiras virou com Love e Pedrinho.
Foi a primeira sequência de três vitórias consecutivas, e a última partida de Alessandro, que quebrou seu contrato com o Flamengo para ir à Ucrânia, e no fim o Palmeiras nunca mais viu a cor da grana que o rubro-negro devia.
13. Palmeiras 1 x 0 Londrina
A quarta vitória seguida veio em partida complicada, pois Marcinho Guerreiro foi expulso antes dos 20 minutos (por reclamação!).
Mesmo assim, o time teve calma e competência para marcar com, claro, Vágner Love no início do segundo tempo e segurar o placar para júbilo dos quase 21.000 pagantes.
Ainda éramos vice, mas com cada vez mais folga em relação aos times que vinham atrás. O que importava, àquela altura, era se distanciar do nono lugar, para garantir a vaga na segunda fase.
14. Remo 2 x 1 Palmeiras
Era a primeira partida do Palmeiras com os desfalques de Vágner Love e Diego Souza, que foram disputar o Pan-Americano e ficariam fora por algumas semanas. E a segunda derrota no campeonato começou a aparecer em um pênalti mais que discutível concedido ao Remo. O Palmeiras vencia com gol de Pedrinho, mas o empate ainda no primeiro tempo (Valdomiro) incendiou a torcida paraense.
Logo no início do segundo tempo, Marcos falhou e Gian virou. Caía a invencibilidade de 10 jogos, mas o resultado podia ser considerado normal – o adversário estava invicto em casa, e bem na tabela. A classificação não estava ameaçada.
15. Paulista 1 x 2 Palmeiras
Duas derrotas seguidas poderiam entornar o caldo verde. E, faltando 10 minutos para acabar a partida, era esse o cenário verde em Jundiaí. O time do técnico Zetti havia aberto o placar pouco antes com Amaral.
Dois jogadores da base mudaram o cenário da partida. Se a entrada e estreia de André Balada não mudou muita coisa, a de Edmílson pôs fogo em campo. Foi ele que empatou o jogo (seu primeiro gol pelo clube), garantindo sua vaga de titular a partir da partida seguinte. E, no finzinho, Thiago Gentil nos deu três pontos altamente improváveis.
Foi a primeira partida da camisa inaugural da parceria com a Diadora, aquela com os pontinhos “que mudavam de cor com o suor”.
(Continua…)