
Gamarra marcou o segundo gol
Tem jogo que antes mesmo de acabar a gente já sabe que será inesquecível. Pode até mesmo ser um jogo que pareça menos importante, como o de uma pré-Libertadores, mas sempre há quem o guarde com carinho. O jornalista João Paulo Nucci sabia que estava escrevendo sua história naquela partida contra o Deportivo Táchira, tanto que preparou esse texto no dia seguinte daquela partida e agora o divide conosco.
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São Paulo faz 452 anos. É quarta-feira, feriado. Dia mais quente do ano, 36 graus à tarde. Chuva à noite. Um pé d’água considerável, que desabou bem na hora em que eu e meu amigo Bruno, um velho companheiro de jornadas futebolísticas, chegávamos ao Parque Antarctica. Meu irmão desistiu na última hora. Excesso de trabalho no feriado que não vale em São Bernardo, onde ele mora e ganha a vida.
O jogo era de Libertadores. Ou quase. O Palmeiras duela com o Deportivo Táchira, da Venezuela, para ver quem vai jogar o torneio. Palpite: seis a um, igual àquela noite de uns 12 anos atrás, também chuvosa, quando estraçalhamos o Boca Juniors. A gente estava lá – eu, o Bruno e o meu irmão –, acompanhando o melhor desempenho da carreira do Mazinho, e talvez seja esse meu jogo inesquecível de verdade.
Como minha memória é fraca e eu não gosto de viver do passado, fico com o jogo de ontem mesmo. A memória do Bruno é boa. Ele lembrou que a primeira vez que assistiu um jogo in loco foi comigo. Um Palmeiras e Corinthians de 1989, no Morumbi, na época em que o estádio abrigava 102 mil pessoas, vendia cerveja e não tinha catraca eletrônica. Não conseguimos lembrar o placar, só guardei daquela tarde que o goleiro Velloso saiu consagrado. Meu irmão, aos sete anos de idade, também estava lá. Foi meu pai quem nos levou. Quando a gente tirou carta de motorista, um pouquinho depois disso, ele parou de ir ao estádio. A gente sempre chama, mas ele nunca topa. Talvez esse seja o jogo inesquecível do Bruno.
É possível que sim, mas são tantos outros que é difícil escolher apenas um. Eu fico com o de ontem mesmo. Não valeu título como aquela final da Copa do Brasil de 1998, Palmeiras e Cruzeiro no Morumbi. O Oséas fez aquele gol espírita e correu na nossa direção. Estávamos na numerada inferior, e o Bruno conseguiu ficar com uns dois ou três fiapos da camisa do artilheiro. Se eu fuçar nas minhas coisas eu acho essa relíquia. O Bruno é mais organizado, sabe onde está o pedaço dele. Foi um jogo inesquecível, que abriu o caminho para a maior conquista da história do Verdão, a Libertadores de 99.
Mas eu vou conservar minha posição: o jogo de ontem é o meu eleito. Quando a chuva apertou, ainda lá fora, deu vontade de desistir e ir embora. A capucha resolveu muito mal a questão da impermeabilidade – o suor do corpo acumulado durante o dia mais quente do ano grudou no plástico vagabundo, que já molhara durante a complicada operação de vestir a capa. O tênis ensopou nos três primeiros passos rumo à fila de entrada. Torcedor não desiste.
O Bruno lembrou de uma noite parecida com essa, anos e anos atrás. Teve chuva, o time perdeu para o Inter de Porto Alegre e saiu de uma Copa do Brasil, ele perdeu o ônibus para São Bernardo, pegou outro para Santo André, foi assaltado na estação… e depois dizem que corintiano é que é sofredor. Eu também lembro muito bem de um jogo contra os colorados. Tarde de domingo, Parque Antarctica lotado, um zero a zero difícil até os quarenta e poucos do segundo tempo. Até que o Antonio Carlos roubou uma bola, atravessou o campo e acertou uma sapatada inacreditável.
Eu não tenho idade para isso – nasci em 1974, poucos dias depois do artilheiro Ronaldo aumentar a fila corintiana –, mas já vi Ademir da Guia (foto abaixo) jogar. Foi há uns dois anos. O Schumacher estava em campo também. Dois gênios batendo bola no Parque Antarctica. Até o Didi dos Trapalhões apareceu, mas esse deixou de ser gênio, para mim, quando eu cresci um pouquinho e percebi que o Chaplin já tinha feito tudo aquilo. E muito melhor. O velho Divino deu dois ou três toques na bola, com a mítica categoria. Valeu. Vou contar pros meus filhos, quando eles nascerem. Não vou dizer que foi inesquecível para não ficar repetitivo.

Lembro muito bem da minha primeira noite num estádio. Palmeiras e Vasco, no Morumbi, campeonato brasileiro de 83. Na verdade, eu lembro muito bem de três coisas: da cabeleira loira do Rocha, da bomba que ele mandou no travessão e da tristeza na hora de ir embora. O zero a zero desclassificou o Verdão. Tive uma infância difícil. Só fui saber o que é um título aos 17 anos, em 1993 – e essa história eu nem preciso contar, de tão viva que está na memória de todos, corintianos inclusive.
O desastre de 1986 foi um golpe duro de assimilar. Eu chorei naquela noite, quando o Denys entregou o segundo gol. O Palmeiras ainda reagiu, meu pai foi me chamar no quarto para acompanhar a virada, mas eu não tive forças. Nem o Palmeiras. Deu Inter de Limeira.
Outra derrota memorável foi aquela da Copa Mercosul de 2000. No primeiro tempo, Palmeiras 3, Vasco 0. Façanha palestrina: entregou um título ganho. Terminou 4 a 3, com show do Romário. Vi o jogo em casa, deitado no chão – tinha machucado as costas. No intervalo, uma namoradinha veio me visitar. Foi impossível dissociar a presença dela com a derrota inacreditável. Vou ser mais claro: o Palmeiras perdeu aquele título por causa dela. Não deu outra: o namorico acabou pra sempre dias depois. Desgraçada.
Tem muito mais para lembrar. O Marcelinho perdendo pênalti na semifinal da Libertadores de 2000 – o Bruno me falou ontem que ele considera esse momento o mais feliz da vida dele, e parecia que ele estava falando sério. O título da série B em 2003, o ano da minha vida em que eu fui mais palmeirense. O atacante Gaúcho pegando dois pênaltis no Maracanã em 89, contra o Flamengo, na noite em que o Zetti quebrou a perna. O próprio Zetti engolindo um frango do Neto, acho que em 86, contra o São Paulo. A geração vitoriosa de 93-94, numa época em que eu, o Bruno e meu irmão chegávamos a ver três jogos na mesma semana no estádio – graças aos belos calendários do futebol brasileiro, o Verdão jogava de terça, quinta e no fim de semana quase todas as semanas.
Eu estava no Maracanã, sem o Bruno e sem o meu irmão, na final do Brasileiro de 97. Palmeiras e Vasco, primeiro bom resultado do Felipão. A gente só não levou esse título porque o Edmundo e o Evair jogaram com a camisa errada.
O Edmundo estava em campo ontem. E o Evair, se emagrecesse um pouco, poderia estar também. Ele é melhor do que todos os atacantes do Palmeiras juntos. O time está desbalanceado. Tem muitos meias e poucos goleadores. Até o Edmundo joga mais recuado. Mas não tem problema. Agora a chuva parou e o Marcinho já fez um a zero. A mídia corintiana diz que ele estava impedido, mas eu não acredito. O Nelson Rodrigues já dizia que o videotape é burro. Foi um belo gol. Lindo passe do Paulo Baier, uma revelação do futebol brasileiro aos 30 e tantos anos.
O Edmundo não voltou para o segundo tempo. O Leão não gosta dele, é claro. O Leão não gosta de ninguém, na verdade, além de si próprio. Ele é fascista, mas vai ser campeão. Nesse caso, os fins justificam os meios. Às favas os escrúpulos de consciência, diria o Jarbas Passarinho.
Entrou o Gioino, atacante argentino. Tem gente que o chama de Nhônho. O apelido é duplamente apropriado, pela pronúncia complicada do nome e pela falta de atitude em campo. O Gamarra fez o segundo gol, numa jogada em que o Nhônho teve participação fundamental: neutralizou o goleiro adversário, enquanto o zagueiro que é palmeirense desde sempre, embora já tenha feito algumas escolhas erradas na vida, empurrava a bola para a rede. A imprensa corintiana falou que foi falta do Nhônho no goleiro. Bobagem, dois a zero.
Tem coisas que eu não vivi, mas que também são inesquecíveis. O campeonato Mundial de 51; as defesas do Oberdan; o jogo no Mineirão contra o Uruguai, com a camisa da Seleção Brasileira; os 4 a 1 contra o Flamengo de 81 no Maracanã lotado; a transição de Palestra Itália (foto abaixo) para Palmeiras (essa história é linda: final do paulista de 42, contra o São Paulo, que foge de campo após ser goleado. Alguém estende uma faixa na arquibacanda: “Morre um líder, nasce um campeão”. Meu braço está arrepiado).

Tem outros fiascos memoráveis também: a final da Libertadores de 68, contra um time do Independiente, da Argentina, em que até o técnico estava dopado; aquela fase dos anos 80 em que os times do interior se impuseram sobre o Verdão (o XV de Jaú do Wilson Mano em 1984, a Ferroviária em 1985, a Inter em 1986, o Brangantino em 1989); os 7 a 2 do Vitória, hoje felizmente curtindo suas dores na terceira divisão, no Parque Antarctica (o Bruno estava nesse jogo. Diz ele que foram os piores momentos da sua vida, e ele parecia falar sério); as duas derrotas para o Boca Juniors, em 2000 e 2001; a longa lista de técnicos infelizes que já comandaram o Verdão, encabeçada por Marcio Araújo, Murtosa, Levir Culpi e, por que não?, Vanderlei Luxemburgo, que desmontou o time que acabou rebaixado.
O jogo acabou quase meia-noite. Foi uma partida morna, típica de começo de temporada. O Bruno me deixou em casa. O diálogo no carro foi mais ou menos assim:
Bruno: Acho que não dá pra ser campeão, mas se tirar o Corinthians já valeu… Eu: O objetivo principal é esse. Se der pra pegar a taça depois, melhor. Bruno: Aí a gente vai poder dizer que esteve na estréia. Eu: É, jogo histórico. Esse time vai embalar. Bruno: Acho que o Paulista já está garantido. Eu: O Leão está montando um time inesquecível. Está surgindo a Escarola Mecânica. Bruno: É. A gente vai poder dizer que viu a Escarola Mecânica nascer.

Não tenho mais dúvidas. O jogo de ontem é o meu jogo inesquecível. Afinal, foi o jogo em que surgiu a Escarola Mecânica. Meus filhos vão ouvir essa história. Mais essa.
PS: Datas e resultados citados podem estar errados. Nenhum dado foi verificado. De propósito. Puxei tudo de memória. E o que é inesquecível para mim está aí, mesmo que não seja exatamente assim que as coisas tenham acontecido.
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CONTEXTO
O Palmeiras conquistara a vaga na pré-Libertadores com uma emocionante vitória sobre o Fluminense na última rodada do Brasileiro de 2005. No sorteio, tocou-lhe o clube venezuelano, em decisão fora de casa. O Palmeiras vinha em boa fase – tinha 4 vitórias em 4 jogos no Paulistão – mas conseguiu essa vitória não sem algum trabalho. O jogo de volta foi mais sossegado, e o Palmeiras voltou com uma vitória por 4 a 2 e a vaga na fase de grupos.
FICHA TÉCNICA
25/01/2006 – PALMEIRAS-SP 2 x 0 DEPORTIVO TÁCHIRA – COPA LIBERTADORES DA AMÉRICA
Estádio Palestra Itália – São Paulo / SP – Brasil
Horário: 21h45 – Público: 28.979 pagantes – Renda: R$ 409.428,00
Árbitro: Ricardo Grance (PAR) – Assistentes: Nelson Valenzuela (PAR), Celestino Galvá (PAR)
Palmeiras (São Paulo/SP): Marcos, Paulo Baier, Daniel, Gamarra, Lúcio, Marcinho Guerreiro, Corrêa (Reinaldo), Ricardinho (Cristian), Marcinho, Edmundo (Gioino), Washington – Técnico: Emerson Leão
Deportivo Táchira (San Cristóbal/VEN): Leo Morales, Pedro Boada, Perozo, Cuevas, Lancken (Hernández/Valbuena), Villafraz, Ospina, Chacon, Jonny González (Ravier Campos), Rondón, Juan Garcia – Técnico: Manuel Plasencia
Cartões amarelos: Reinaldo, Marcinho Guerreiro (Palmeiras), Valbuena, Leo Morales, Chacon (Deportivo Táchira)
Gols: Marcinho (Palmeiras), 19 min primeiro tempo, Gamarra (Palmeiras), 4 min segundo tempo
NO DIA SEGUINTE
A vitória não teria graça sem polêmica, claro. E, com Leão e Edmundo, não foi difícil para a Folha arrumá-la.
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