Os leitores mais novos ainda não passaram por isso, mas quem é mais velho já vivenciou a carreira inteira de gente que no futuro se tornaria técnico, mas muitas vezes não se recordava do sujeito jogando, pois ele não era lá um craque. Afinal, parece não haver relação alguma entre talento dentro e na beira do campo: muitas vezes, um jogador obscuro acaba virando um treinador famoso - Felipão é prova disso. Outras vezes, o atleta era ótimo mas não vingou na carreira de técnico (Falcão, por exemplo, ainda não se firmou). Há quem tenha sido mestre nas duas funções (não é ídolo meu, mas Telê é nome habitualmente lembrado). Quanto aos que naufragaram em ambas as artes, bom, existem aos borbotões, o leitor pode elaborar sua lista.
O fato é que qualquer um dos atletas que hoje vestem nossas cores pode um dia ser “professor”. De Vinícius a Barcos, passando por Marcos Assunção e Márcio Araújo, todos um dia podem decidir seguir esta carreira quando pendurarem as chuteiras; quem sabe pode até mesmo comandar o Verdão daqui a 15 ou 20 anos.
Para ilustrar como jogadores que mal lembramos podem virar técnicos conhecidos (ainda que nem sempre elogiados), preparamos aqui uma seleção dos nossos ex-jogadores que posteriormente compraram pranchetas. O critério, na medida do possível, é o sucesso na carreira como comandante, justamente para que percebamos como vários deles tiveram passagens discretas pelo Verdão. Com alguns improvisos, afinal, a quantidade de volantes-futuros-treinadores é grande, aqui está o esquadrão:
1. Aymoré Moreira - como goleiro, Aymoré não foi muito longe no Verdão. Entre seus 29 jogos, fez grande parte da campanha do tricampeonato de 1934, mas depois atuou mais em amistosos que em jogos oficiais. Como treinador, no entanto, atingiu o ápice: foi o comandante do bicampeonato mundial no Chile. Antes e depois disso, teve passagens pelo Palmeiras, onde conquistou o Robertão de 1967. Seu reserva pode ser Leão, que como goleiro foi muito superior, mas que à frente da Seleção não vingou. Ainda assim, foi bicampeão brasileiro (1987 e 2002).
2. Benazzi – Vágner Benazzi fez 87 jogos como lateral-direito do Verdão em um dos piores períodos de nossa história, entre 1981 e 1982. Cinco anos depois, começaria a carreira como treinador, caracterizada pelo grande número de acessos com times do interior paulista (meio mapa de SP está em seu currículo) e pelos longos períodos à frente da Portuguesa. Seu reserva é o jovem treinador Arce, que fez sucesso no pequeno Rubio Ñu, mas não o repetiu à frente da Seleção Paraguaia, tendo sido recentemente demitido.
3. Procópio – apenas 38 partidas entre 1965 e 1966, sem títulos. Foi esse o saldo da passagem do zagueiro Procópio Cardoso Neto pelo Verdão; como técnico, porém, ele teria maior sucesso, notadamente no Atlético-MG, em que foi campeão da Conmebol, tri mineiro e vice em várias competições, só ficando atrás de Telê no número de partidas no comando. Dirigiu ainda outros grandes clubes brasileiros e rodou pelo mundo árabe. Seu reserva pode ser Antonio Carlos, que era um zagueiraço mas, como vimos em sua passagem de 2010, ainda engatinha como treinador.
4. Formiga – recém-falecido, Chico Formiga jogava como zagueiro e volante (posição na qual atuou na maioria de suas 72 partidas pelo Palmeiras entre 1956 e 1959); era bom jogador, mas saiu sem títulos – ele retornou para o Santos justo no ano em que os bateríamos no Supercampeonato. Sua carreira de treinador ostenta dois títulos paulistas (Santos/78 e SPFC/81) e o mineiro que marcou o fim do jejum americano de 22 anos em 1993. A vaga no banco fica entre Toninho Cecílio, Argel e Agnaldo, que brigam para se firmar na profissão
5. Dino Sani – revelado pelo Palmeiras, onde só jogou 14 vezes (uma delas pelo Paulistão de 1950, o que lhe confere o status de campeão daquele ano), brilhou no rival São Paulo, chegando até mesmo a ser campeão da Copa de 1958. Como treinador, também foi muito bem: entre outros foi tricampeão gaúcho e bicampeão uruguaio. Dirigiu o Palmeiras em 50 jogos, conquistando o Ramón de Carranza de 1975. Seu reserva será Ivo, que como treinador “ganhou” o sobrenome Wortmann e dirigiu várias equipes brasileiras, com diversas passagens pelo Juventude.
6. Ventura Cambon – o médio esquerdo uruguaio que atuou 52 vezes e foi bicampeão paulista (1932/33) será aqui recuado para lateral. Essas poucas partidas não permitiriam prever que ele se tornaria o técnico com mais passagens no comando palmeirense: doze, várias como interino; no total, foram 248 partidas na casamata verde. Sobre suas conquistas, basta dizer que ele levantou dois paulistas, um Rio-SP e a joia maior da coroa: a Taça Rio. Não encontramos informações sobre outros clubes que ele tenha dirigido.
7. Zezé Moreira – médio direito de apenas sete jogos pelo Verdão (que lhe valeram o título paulista de 1934), Alfredo Moreira Jr. é um daqueles ex-jogadores que ficaram muito mais conhecidos como treinador, assim como seu irmão que veste a camisa 1 desta seleção. Foi o técnico brasileiro na Copa de 1954 e ganhou Estaduais por diversos clubes, além da Libertadores de 1976 pelo Cruzeiro.
8. Júnior – o bom volante do fim dos anos 80 e começo dos 90 fez 157 jogos, naturalmente sem título naquela época de vacas magras. Se ele era então conhecido como “o sobrinho do Dudu”, agora já é chamado também por seu prenome: Dorival Júnior. O atual treinador do Flamengo já tem taças em cinco Estados (SC, PE, PR, SP, RS) e uma Copa do Brasil (Santos/2010) na prateleira.
9. Cuca – ora meia, ora atacante, Cuca teve grande sucesso no Grêmio, mas passagem discreta pelo Palmeiras – foram apenas 24 partidas em 1992. Como treinador, tentar pôr fim à fama de ótimo montador de elencos mas sem grandes títulos – é o atual bicampeão mineiro e por enquanto lidera o Brasileirão à frente do Galo. Esperamos que Evair evolua para um excelente treinador e que então possa comandar o Verdão; por ora, o Matador fica no banco.
10. Brandão – a camisa principal do time evidentemente fica com o maior treinador palmeirense de todos os tempos: Oswaldo Brandão, que foi campeão paulista de 1942 em meio às suas parcas 32 partidas de verde. Como técnico, foram muito mais: 580, o recordista em nossa história, e diversos títulos paulistas, brasileiros e por aí vai, sem contar o que conquistou por outras equipes – é, por exemplo, o único técnico campeão paulista pelo Trio de Ferro (Palmeiras, Corinthians e São Paulo).
11. Ênio Andrade - fechamos o time com um dos mais famosos treinadores brasileiros da história. O meia esquerda jogou 138 vezes pelo Verdão, conquistando o Paulista de 1959 e a Taça Brasil de 1960, mas seria ainda mais vitorioso como técnico; não no Palmeiras, que comandou em 1988, mas por clubes como Inter, Grêmio e Coritiba (foi campeão brasileiro por todos eles).
Técnico? Um time desses não precisa, certo?














