“E agora eu vou soltar a minha voz: gooooooooooooooooool do Palmeiras!“
Não foi apenas José Silvério quem soltou sua voz. Naquele instante, com exatos 9 minutos e 59 segundos da prorrogação, Evair marcou o último gol do Campeonato Paulista e milhões de palmeirenses souberam que o grito tantas vezes reprimido de “é campeão” finalmente podia sair de suas gargantas: o Campeão do Século voltara, o inverno se acabara.
(E até hoje eu ainda não consigo conter as lágrimas ao descrever esse dia)
A partida que nos redimiu começou bem antes de Edmundo (acho) rolar a bola pela primeira vez. Muito antes da execução do Hino Nacional por Agnaldo Timóteo. De mais de 104.000 torcedores afluírem ao Morumbi para verem o mais importante capítulo da vida de torcedor de toda uma geração.
Começou, claro, quando Viola teve a feliz ideia de imitar um porco na primeira metade da decisão. O Palmeiras até perdeu aquela partida, mas o camisa 9 corintiano deu ao Verdão a faísca que faltava para incendiar os últimos 120 minutos de agonia.
Premido pela necessidade de vencer, Luxemburgo colocou um banco ofensivo (com Velloso, Alexandre Rosa, Jean Carlo, Maurílio e Soares). O time inicial era o que vinha jogando, com a necessária troca do suspenso Amaral por Daniel – além, evidentemente, do retorno de Evair aos titulares.
Sérgio; Mazinho, Antonio Carlos, Tonhão, Roberto Carlos; César Sampaio, Daniel, Zinho; Edmundo, Edílson, Evair. Um timaço.
Desde o primeiro minuto ficou nítido quem daria as cartas: com apenas 58 segundos, Edmundo perdeu uma chance incrível. Aos 9’30″, foi Edílson quem invadiu, mas, desequilibrado, não concluiu bem. Três minutos depois, Zinho pegou um rebote de escanteio e chutou em cima de Ronaldo.
Nelsinho percebeu que o crime estava prestes a ser cometido, e tomou uma decisão destemida: com apenas 18 minutos, trocou Adil por Tupãzinho, com o claro intuito de reforçar a marcação. As chances do Palmeiras então escassearam um pouco, mas o time ainda dominava a peleja.
Mesmo assim, quem deu o susto seguinte foi o Timão: aos 32, uma cabeçada de Viola que nem foi tão perigosa assim, mas que quase causou uma parada cardíaca neste então moleque de 15 anos. Foi a última vez naqueles 17 anos em que o Palmeiras esteve ameaçado de perder.
Afinal, a redenção começaria dali a pouco: aos 36 minutos e 41 segundos, Zinho explodiria a metade verde do estádio ao abrir o placar após a bola passar por boa parte do time, a partir do goleiro Sérgio. Com aquele gol, a vantagem na decisão voltava a ser alviverde: se a meta do Palmeiras não fosse vazada, o título viria.
A missão palmeirense ficou um pouco mais fácil minutos após a abertura do placar: aos 39’20″, Henrique fez falta duríssima em Edílson e, já tendo o amarelo, teve que ir para o chuveiro (depois reclamaria do juiz, mas basta olhar o lance que não resta dúvida do acerto na expulsão). Nelsinho já tinha usado uma substituição e, não querendo queimar a segunda, pediu para Ricardo, que vinha jogando na lateral esquerda, ficar na zaga. Do ponto de vista alvinegro, foi uma atitude corretíssima, como se verá.
Antes do intervalo, houve ainda a famosa voadora de Edmundo em Paulo Sérgio, que não foi muito diferente do que os jogadores do rival, particularmente Ricardo, já tinham feito com nosso camisa sete por toda a primeira etapa. O fato é que o primeiro tempo se encerrou com vantagem verde no placar, no número de jogadores e no ânimo da ainda escaldada torcida.
Após um minuto de silêncio em homenagem ao pai do zagueiro alvinegro Marcelo, a segunda etapa começou com o Corinthians mais bem postado em campo. Com um a menos prematuramente, o time sabia que levar a partida para a prorrogação era forçar um desgaste desfavorável, e portanto, já que tinha que marcar um gol, melhor que fosse no tempo normal.
A estratégia acabou barrando na boa atuação da zaga palmeirense, e pouco a pouco o Verdão começou a reagir, até chegar a um ponto crucial na história do Palmeiras: após um drible de Tonhão (!), uma arrancada de TONHÃO (!!), seguida por um lançamento perfeito de trivela para Edmundo de TONHÃO (!!!), Ronaldo derrubou o Animal, que vinha sozinho, e ganhou um cartão vermelho de presente. Numa aula de malandragem (temos que reconhecer, ele foi brilhante), o camisa 1 fingiu ter sido agredido e conseguiu ao menos levar embora com ele o camisa 4 do Verdão. Não faz mal: Tonhão saiu do campo para entrar para a História. Ele ainda faria mais 87 partidas pela equipe, mas poderia ter se aposentado em glória naquele instante.
O Corinthians foi obrigado a fazer sua segunda alteração – já pensaram se Nelsinho tivesse mexido após a expulsão de Henrique? O time seria obrigado a atuar o resto do tempo com um jogador de linha no gol. Assim, o mesmo Tupãzinho que entrara no lugar de Adil deu lugar a Wilson “Macarrão”, que quase 11 anos depois seria técnico interino do Palmeiras.
Vendo o adversário com apenas 8 na linha, Luxemburgo arriscou manter a equipe sem sacrificar um de seus atacantes para colocar Alexandre Rosa. Foi arriscado: mesmo com nove contra dez, o Corinthians mostrava brio e volta e meia ameaçava. Mas também foi certo: permitiu o golpe que praticamente garantia a prorrogação.
Zinho roubou bola em nosso campo, praticamente dentro da área, e desceu rapidamente; vários jogadores o acompanharam. Foi assim que, ao tirar a bola de Evair, a zaga alvinegra não conseguiu afastar, e botou a bola no pé de Mazinho. O lateral direito arrancou pela esquerda, deixou seus marcadores deitados ou perplexos e rolou para Evair, aos 28 minutos e 57 segundos, marcar o segundo gol, o gol que mostrou que qualquer resto de equilíbrio acabara: o Palmeiras era senhor da decisão. E assim caiu o longo jejum de Evair, que ficou fora muito tempo por lesão: a última vez que o Matador fora às redes havia sido dois meses e um dia antes, contra a Portuguesa.
Sabendo que não marcaria os dois gols que lhe dariam o título diretamente, o Corinthians tomou a decisão óbvia: diminuiu o ritmo à espera da prorrogação, quando lhe bastaria um. O Palmeiras evidentemente fez o mesmo, e os 20 minutos finais do segundo tempo só não passaram despercebidos porque houve ainda mais uma estaca cravada no rival: em meio a muitos gritos de “Palmeiras” e alguns tímidos de “olé”, Antonio Carlos lançou Daniel, que entrou rápido na área, deixou Marcelo sentado mais uma vez e centrou para Evair, que escolheu o canto mas jogou no pé da trave. Rápido como uma flecha, Edílson encheu o pé no rebote e, aos 38 minutos e 18 segundos, marcou o terceiro. Um tento que, se não mudava a história do jogo, valeu por construir a goleada. E que foi um prêmio ao provavelmente melhor jogador palmeirense em toda aquela campanha (é isso mesmo: temos pinimba do Capetinha pelo que fez no rival, especialmente a final de 1999, mas é justo reconhecer – ele contribuiu muito, muito mesmo, para que hoje possamos falar sobre 1993).
O resto do tempo normal prosseguiu sem maiores emoções (mentira, cada minuto que passava trazia um sentimento cada vez melhor), e os oponentes se alinharam para a prorrogação. A batalha final.
Logo ficou claro para qualquer espectador isento – palmeirenses e corinthianos estavam nervosos demais para racionalizar o que fosse – que o time do Parque São Jorge dependeria mais da sorte que de bola. Porque essa estava o tempo todo nos pés verdes.
O massacre foi amplo: aos 2, bela jogada de Edmundo e Edílson perdeu um gol incrível. Aos 4, Edmundo mandou pra fora. O Corinthians tentou responder aos 7, quando Viola invadiu a área, gingou, mas o chute foi bloqueado.
A resposta foi fulminante: vinte segundos depois, Edmundo era derrubado na área por Ricardo. Pênalti que José Aparecido de Oliveira assinalou incontinenti. Pênalti após o qual o mundo seria um lugar melhor.
Antes de Evair tomar a bola para si, deu tempo para Ezequiel ser expulso por reclamação. Reduzido a oito e vendo o camisa 9, que pelo Palmeiras jamais falhara numa cobrança da marca fatal, ir para a bola, o Corinthians sabia que sua sorte estava selada. Dificilmente a vingança de 1974 se concretizaria.
Dali para a frente, dizem que o já eterno ídolo foi substituído por Alexandre Rosa, e Edílson por Jean Carlo. Pode ser. Àquela altura eu já estava em outro plano, mergulhado nos sonhos alimentados durante anos que por fim se tornavam realidade. Só sei que voltei à Terra mais ou menos na hora em que Luxemburgo cumprimentava Nelsinho e ia para o vestiário, naquele gesto de, hmmm, humildade calculada.
Poucos segundos depois, acabava a partida, acabava o campeonato, acabava o pesadelo. E a festa explodiu no estádio, na cidade, em vários pontos do país.
E, naquele dia dos Namorados, finalmente essa nossa imensa paixão que é o Palmeiras voltava a ser correspondida.
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Não curtiu muito a narração do Luiz Alfredo? Então reviva aquele jogo com outras vozes:
José Silvério
Silvio Luiz (a que eu acompanhei)
Fiori Gigliotti (pena não ter outras)
Osmar Santos
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É evidente que o Palmeiras não foi campeão somente naquele dia. O título foi o resultado de uma bela campanha que consistiu em 38 jogos, com 26 vitórias, 6 empates e 6 derrotas, 72 gols a favor e 30 contra, saldo de 42.
Trouxemos nos últimos meses um resumo de toda esta campanha. Confira aqui todos os jogos que nos levaram ao fim do jejum, além de alguns outros momentos marcantes desta inesquecível trajetória.
O cenário
Primeira fase – 1º turno
- Palmeiras 2×1 Marília
- XV de Piracicaba 0×2 Palmeiras
- Palmeiras 2×2 Rio Branco
- Sérgio entra no lugar de Velloso
- Santos 1×3 Palmeiras
- Palmeiras 2×2 Ponte Preta
- Palmeiras 2×0 Corinthians
- Mogi Mirim 2×2 Palmeiras
- Palmeiras 1×1 União São João
- Portuguesa 0×4 Palmeiras
- O conflito de Edmundo e Evair
- Ituano 1×3 Palmeiras
- Guarani 1×3 Palmeiras
- Bragantino 1×0 Palmeiras
- Palmeiras 4×1 Juventus
- Palmeiras 0×0 São Paulo
- Noroeste 0×0 Palmeiras
- Resumo da campanha
Primeira fase – 2º turno
- Juventus 2×1 Palmeiras
- Palmeiras 2×0 Bragantino
- Marília 1×3 Palmeiras
- Palmeiras 1×0 Noroeste
- Palmeiras 2×1 Santos
- Ponte Preta 0×1 Palmeiras
- Palmeiras 2×1 Portuguesa
- Palmeiras 1×2 Mogi Mirim
- A primeira contusão de Evair
- A queda de Otacílio Gonçalves
- São Paulo 2×0 Palmeiras
- Luxemburgo assume o Verdão
- Rio Branco 1×2 Palmeiras
- Palmeiras 2×0 Ituano
- Palmeiras 3×0 Guarani
- Corinthians 3×0 Palmeiras
- União São João 0×1 Palmeiras
- Palmeiras 2×1 XV de Piracicaba
- Resumo da primeira fase
Quadrangular semifinal
- A segunda lesão de Evair
- A queda na Copa do Brasil
- Palmeiras 6×1 Rio Branco
- Guarani 0×2 Palmeiras
- Ferroviária 0×1 Palmeiras
- Palmeiras 1×0 Guarani
- Rio Branco 0×1 Palmeiras
- Evair volta ou não?
- Palmeiras 4×1 Ferroviária
- O Corinthians chega à final
Final
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Alguns jogaram muito, outros só alguns minutos. Mas todos estes 25 jogadores e 3 treinadores entraram para a história do Palmeiras:
Goleiros
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Sérgio Luiz de Araújo (35 jogos, 26 gols sofridos)
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Wagner Fernando Velloso (4 jogos, 4 gols sofridos)
Laterais
- Iomar do Nascimento, Mazinho (36 jogos, 1 gol)
- Roberto Carlos da Silva (33 jogos, 4 gols)
- João Luís Barbosa (19 jogos)
- Jefferson Vieira da Silva (5 jogos, 1 gol)
- Cláudio Guadagno (2 jogos)
Zagueiros
- Antonio Carlos Zago (34 jogos, 2 gols)
- Antônio Carlos da Costa Gonçalves, Tonhão (17 jogos)
- Édson Manoel do Nascimento, Edinho Baiano (23 jogos, 1 gol)
- Alexandre Ricardo Rosa (9 jogos)
Meias
- Carlos César Sampaio Campos (34 jogos, 4 gols)
- Daniel Frasson (25 jogos, 1 gol)
- Crizam César de Oliveira Filho, Zinho (36 jogos, 9 gols)
- Edílson da Silva Ferreira (35 jogos, 11 gols)
- Alexandre da Silva Mariano, Amaral (11 jogos)
- Jean Carlo de Souza (26 jogos, 4 gols)
- Juliano César de Moraes Tobias, Juari (3 jogos)
- José Aparecido Pereira, Naná (1 jogo)
Atacantes
- Evair Aparecido Paulino (24 jogos, 18 gols)
- Edmundo Alves de Souza Neto (34 jogos, 11 gols)
- Cléverson Maurílio Silva (25 jogos, 4 gols)
- José Carlos Soares (3 jogos, 1 gol)
- Aguinaldo Luiz Sorato (2 jogos)
- Paulo Sérgio Gonzatti (1 jogo)
Técnicos
- Wanderley (grafia da época) Luxemburgo da Silva (14 jogos, 12V/2D)
- Otacílio Gonçalves da Silva Júnior (23 jogos, 14V/6E/3D)
- Raul Pratali Filho (1 jogo, 1D)
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Ficha Técnica
Gols: Zinho 36 do 1º Tempo; Evair 28 e Edílson 38 do 2º Tempo; Evair aos 9 do 1° tempo da prorrogação
Palmeiras: Sérgio, Mazinho, Antônio Carlos, Tonhão e Roberto Carlos; César Sampaio, Daniel e Edílson (Jean Carlo); Edmundo, Evair (Alexandre Rosa) e Zinho. Técnico: Wanderley Luxemburgo
Corinthians: Ronaldo, Leandro Silva, Marcelo, Henrique e Ricardo; Ezequiel, Marcelinho Paulista e Neto; Paulo Sérgio, Viola e Adil (Tupãzinho, depois Wilson). Técnico: Nelsinho Baptista
Cartões Vermelhos: Henrique, Ronaldo, Tonhão e Ezequiel
Cartões Amarelos: Roberto Carlos, Mazinho, Zinho, Edmundo, Marcelo, Leandro Silva e Neto
Árbitro: José Aparecido de Oliveira
Local: Morumbi, para 104.401 pagantes e renda de Cr$ 18.154.900.000,00.
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As capas do dia seguinte (notem a do Estadão: é uma raridade que a manchete principal seja esportiva)




















