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EP93_FINAL

E agora eu vou soltar a minha voz: gooooooooooooooooool do Palmeiras!

Não foi apenas José Silvério quem soltou sua voz. Naquele instante, com exatos 9 minutos e 59 segundos da prorrogação, Evair marcou o último gol do Campeonato Paulista e milhões de palmeirenses souberam que o grito tantas vezes reprimido de “é campeão” finalmente podia sair de suas gargantas: o Campeão do Século voltara, o inverno se acabara.

(E até hoje eu ainda não consigo conter as lágrimas ao descrever esse dia)

A partida que nos redimiu começou bem antes de Edmundo (acho) rolar a bola pela primeira vez. Muito antes da execução do Hino Nacional por Agnaldo Timóteo. De mais de 104.000 torcedores afluírem ao Morumbi para verem o mais importante capítulo da vida de torcedor de toda uma geração.

Começou, claro, quando Viola teve a feliz ideia de imitar um porco na primeira metade da decisão. O Palmeiras até perdeu aquela partida, mas o camisa 9 corintiano deu ao Verdão a faísca que faltava para incendiar os últimos 120 minutos de agonia.

Premido pela necessidade de vencer, Luxemburgo colocou um banco ofensivo (com Velloso, Alexandre Rosa, Jean Carlo, Maurílio e Soares). O time inicial era o que vinha jogando, com a necessária troca do suspenso Amaral por Daniel – além, evidentemente, do retorno de Evair aos titulares.

Sérgio; Mazinho, Antonio Carlos, Tonhão, Roberto Carlos; César Sampaio, Daniel, Zinho; Edmundo, Edílson, Evair. Um timaço.

Desde o primeiro minuto ficou nítido quem daria as cartas: com apenas 58 segundos, Edmundo perdeu uma chance incrível. Aos 9’30”, foi Edílson quem invadiu, mas, desequilibrado, não concluiu bem. Três minutos depois, Zinho pegou um rebote de escanteio e chutou em cima de Ronaldo.

Nelsinho percebeu que o crime estava prestes a ser cometido, e tomou uma decisão destemida: com apenas 18 minutos, trocou Adil por Tupãzinho, com o claro intuito de reforçar a marcação. As chances do Palmeiras então escassearam um pouco, mas o time ainda dominava a peleja.

Mesmo assim, quem deu o susto seguinte foi o Timão: aos 32, uma cabeçada de Viola que nem foi tão perigosa assim, mas que quase causou uma parada cardíaca neste então moleque de 15 anos. Foi a última vez naqueles 17 anos em que o Palmeiras esteve ameaçado de perder.

Afinal, a redenção começaria dali a pouco: aos 36 minutos e 41 segundos, Zinho explodiria a metade verde do estádio ao abrir o placar após a bola passar por boa parte do time, a partir do goleiro Sérgio. Com aquele gol, a vantagem na decisão voltava a ser alviverde: se a meta do Palmeiras não fosse vazada, o título viria.

A missão palmeirense ficou um pouco mais fácil minutos após a abertura do placar: aos 39’20”, Henrique fez falta duríssima em Edílson e, já tendo o amarelo, teve que ir para o chuveiro (depois reclamaria do juiz, mas basta olhar o lance que não resta dúvida do acerto na expulsão). Nelsinho já tinha usado uma substituição e, não querendo queimar a segunda, pediu para Ricardo, que vinha jogando na lateral esquerda, ficar na zaga. Do ponto de vista alvinegro, foi uma atitude corretíssima, como se verá.

Antes do intervalo, houve ainda a famosa voadora de Edmundo em Paulo Sérgio, que não foi muito diferente do que os jogadores do rival, particularmente Ricardo, já tinham feito com nosso camisa sete por toda a primeira etapa. O fato é que o primeiro tempo se encerrou com vantagem verde no placar, no número de jogadores e no ânimo da ainda escaldada torcida.

Após um minuto de silêncio em homenagem ao pai do zagueiro alvinegro Marcelo, a segunda etapa começou com o Corinthians mais bem postado em campo. Com um a menos prematuramente, o time sabia que levar a partida para a prorrogação era forçar um desgaste desfavorável, e portanto, já que tinha que marcar um gol, melhor que fosse no tempo normal.

A estratégia acabou barrando na boa atuação da zaga palmeirense, e pouco a pouco o Verdão começou a reagir, até chegar a um ponto crucial na história do Palmeiras: após um drible de Tonhão (!), uma arrancada de TONHÃO (!!), seguida por um lançamento perfeito de trivela para Edmundo de TONHÃO (!!!), Ronaldo derrubou o Animal, que vinha sozinho, e ganhou um cartão vermelho de presente. Numa aula de malandragem (temos que reconhecer, ele foi brilhante), o camisa 1 fingiu ter sido agredido e conseguiu ao menos levar embora com ele o camisa 4 do Verdão. Não faz mal: Tonhão saiu do campo para entrar para a História. Ele ainda faria mais 87 partidas pela equipe, mas poderia ter se aposentado em glória naquele instante.

O Corinthians foi obrigado a fazer sua segunda alteração – já pensaram se Nelsinho tivesse mexido após a expulsão de Henrique? O time seria obrigado a atuar o resto do tempo com um jogador de linha no gol. Assim, o mesmo Tupãzinho que entrara no lugar de Adil deu lugar a Wilson “Macarrão”, que quase 11 anos depois seria técnico interino do Palmeiras.

Vendo o adversário com apenas 8 na linha, Luxemburgo arriscou manter a equipe sem sacrificar um de seus atacantes para colocar Alexandre Rosa. Foi arriscado: mesmo com nove contra dez, o Corinthians mostrava brio e volta e meia ameaçava. Mas também foi certo: permitiu o golpe que praticamente garantia a prorrogação.

Zinho roubou bola em nosso campo, praticamente dentro da área, e desceu rapidamente; vários jogadores o acompanharam. Foi assim que, ao tirar a bola de Evair, a zaga alvinegra não conseguiu afastar, e botou a bola no pé de Mazinho. O lateral direito arrancou pela esquerda, deixou seus marcadores deitados ou perplexos e rolou para Evair, aos 28 minutos e 57 segundos, marcar o segundo gol, o gol que mostrou que qualquer resto de equilíbrio acabara: o Palmeiras era senhor da decisão. E assim caiu o longo jejum de Evair, que ficou fora muito tempo por lesão: a última vez que o Matador fora às redes havia sido dois meses e um dia antes, contra a Portuguesa.

2a0

Sabendo que não marcaria os dois gols que lhe dariam o título diretamente, o Corinthians tomou a decisão óbvia: diminuiu o ritmo à espera da prorrogação, quando lhe bastaria um. O Palmeiras evidentemente fez o mesmo, e os 20 minutos finais do segundo tempo só não passaram despercebidos porque houve ainda mais uma estaca cravada no rival: em meio a muitos gritos de “Palmeiras” e alguns tímidos de “olé”, Antonio Carlos lançou Daniel, que entrou rápido na área, deixou Marcelo sentado mais uma vez e centrou para Evair, que escolheu o canto mas jogou no pé da trave. Rápido como uma flecha, Edílson encheu o pé no rebote e, aos 38 minutos e 18 segundos, marcou o terceiro. Um tento que, se não mudava a história do jogo, valeu por construir a goleada. E que foi um prêmio ao provavelmente melhor jogador palmeirense em toda aquela campanha (é isso mesmo: temos pinimba do Capetinha pelo que fez no rival, especialmente a final de 1999, mas é justo reconhecer – ele contribuiu muito, muito mesmo, para que hoje possamos falar sobre 1993).

O resto do tempo normal prosseguiu sem maiores emoções (mentira, cada minuto que passava trazia um sentimento cada vez melhor), e os oponentes se alinharam para a prorrogação. A batalha final.

Logo ficou claro para qualquer espectador isento – palmeirenses e corinthianos estavam nervosos demais para racionalizar o que fosse – que o time do Parque São Jorge dependeria mais da sorte que de bola. Porque essa estava o tempo todo nos pés verdes.

O massacre foi amplo: aos 2, bela jogada de Edmundo e Edílson perdeu um gol incrível. Aos 4, Edmundo mandou pra fora. O Corinthians tentou responder aos 7, quando Viola invadiu a área, gingou, mas o chute foi bloqueado.

A resposta foi fulminante: vinte segundos depois, Edmundo era derrubado na área por Ricardo. Pênalti que José Aparecido de Oliveira assinalou incontinenti. Pênalti após o qual o mundo seria um lugar melhor.

Antes de Evair tomar a bola para si, deu tempo para Ezequiel ser expulso por reclamação. Reduzido a oito e vendo o camisa 9, que pelo Palmeiras jamais falhara numa cobrança da marca fatal, ir para a bola, o Corinthians sabia que sua sorte estava selada. Dificilmente a vingança de 1974 se concretizaria.

E Evair não decepcionou.

Dali para a frente, dizem que o já eterno ídolo foi substituído por Alexandre Rosa, e Edílson por Jean Carlo. Pode ser. Àquela altura eu já estava em outro plano, mergulhado nos sonhos alimentados durante anos que por fim se tornavam realidade. Só sei que voltei à Terra mais ou menos na hora em que Luxemburgo cumprimentava Nelsinho e ia para o vestiário, naquele gesto de, hmmm, humildade calculada.

Poucos segundos depois, acabava a partida, acabava o campeonato, acabava o pesadelo. E a festa explodiu no estádio, na cidade, em vários pontos do país.

E, naquele dia dos Namorados, finalmente essa nossa imensa paixão que é o Palmeiras voltava a ser correspondida.

campeao1993

*

Não curtiu muito a narração do Luiz Alfredo? Então reviva aquele jogo com outras vozes:

José Silvério

Silvio Luiz (a que eu acompanhei)

Fiori Gigliotti (pena não ter outras)

Osmar Santos

*

É evidente que o Palmeiras não foi campeão somente naquele dia. O título foi o resultado de uma bela campanha que consistiu em 38 jogos, com 26 vitórias, 6 empates e 6 derrotas, 72 gols a favor e 30 contra, saldo de 42.

Trouxemos nos últimos meses um resumo de toda esta campanha. Confira aqui todos os jogos que nos levaram ao fim do jejum, além de alguns outros momentos marcantes desta inesquecível trajetória.

O cenário

Primeira fase – 1º turno

Primeira fase – 2º turno

Quadrangular semifinal

Final

*

Alguns jogaram muito, outros só alguns minutos. Mas todos estes 25 jogadores e 3 treinadores entraram para a história do Palmeiras:

Goleiros

  • Sérgio Luiz de Araújo (35 jogos, 26 gols sofridos)
  • Wagner Fernando Velloso (4 jogos, 4 gols sofridos)

Laterais

  • Iomar do Nascimento, Mazinho (36 jogos, 1 gol)
  • Roberto Carlos da Silva (33 jogos, 4 gols)
  • João Luís Barbosa (19 jogos)
  • Jefferson Vieira da Silva (5 jogos, 1 gol)
  • Cláudio Guadagno (2 jogos)

Zagueiros

  • Antonio Carlos Zago (34 jogos, 2 gols)
  • Antônio Carlos da Costa Gonçalves, Tonhão (17 jogos)
  • Édson Manoel do Nascimento, Edinho Baiano (23 jogos, 1 gol)
  • Alexandre Ricardo Rosa (9 jogos)

Meias

  • Carlos César Sampaio Campos (34 jogos, 4 gols)
  • Daniel Frasson (25 jogos, 1 gol)
  • Crizam César de Oliveira Filho, Zinho (36 jogos, 9 gols)
  • Edílson da Silva Ferreira (35 jogos, 11 gols)
  • Alexandre da Silva Mariano, Amaral (11 jogos)
  • Jean Carlo de Souza (26 jogos, 4 gols)
  • Juliano César de Moraes Tobias, Juari (3 jogos)
  • José Aparecido Pereira, Naná (1 jogo)

Atacantes

  • Evair Aparecido Paulino (24 jogos, 18 gols)
  • Edmundo Alves de Souza Neto (34 jogos, 11 gols)
  • Cléverson Maurílio Silva (25 jogos, 4 gols)
  • José Carlos Soares (3 jogos, 1 gol)
  • Aguinaldo Luiz Sorato (2 jogos)
  • Paulo Sérgio Gonzatti (1 jogo)

Técnicos

  • Wanderley (grafia da época) Luxemburgo da Silva (14 jogos, 12V/2D)
  • Otacílio Gonçalves da Silva Júnior (23 jogos, 14V/6E/3D)
  • Raul Pratali Filho (1 jogo, 1D)

palmeiras-1993

*

Ficha Técnica

Gols: Zinho 36 do 1º Tempo; Evair 28 e Edílson 38 do 2º Tempo; Evair aos 9 do 1° tempo da prorrogação

Palmeiras: Sérgio, Mazinho, Antônio Carlos, Tonhão e Roberto Carlos; César Sampaio, Daniel e Edílson (Jean Carlo); Edmundo, Evair (Alexandre Rosa) e Zinho. Técnico: Wanderley Luxemburgo

Corinthians: Ronaldo, Leandro Silva, Marcelo, Henrique e Ricardo; Ezequiel, Marcelinho Paulista e Neto; Paulo Sérgio, Viola e Adil (Tupãzinho, depois Wilson). Técnico: Nelsinho Baptista

Cartões Vermelhos: Henrique, Ronaldo, Tonhão e Ezequiel

Cartões Amarelos: Roberto Carlos, Mazinho, Zinho, Edmundo, Marcelo, Leandro Silva e Neto

Árbitro: José Aparecido de Oliveira

Local: Morumbi, para 104.401 pagantes e renda de Cr$ 18.154.900.000,00.

Palmeiras Campeão Paulista de 1993

*

As capas do dia seguinte (notem a do Estadão: é uma raridade que a manchete principal seja esportiva)

Capa Estadão

Capa Folha

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De volta

De volta

Evair havia disputado sua última partida pelo Palmeiras em 15 de abril, na derrota para o Mogi Mirim. De lá para as vésperas da decisão, o Verdão havia trocado de técnico, vencido a primeira fase, caído fora da Copa do Brasil e vencido a segunda fase.

Foi bastante tempo longe dos gramados, mas na sexta-feira que antecedia o primeiro Derby final, o Matador finalmente recebeu o aval da comissão técnica e médica para retornar. Após disputar mais de uma hora de um jogo-treino dos juniores contra o Santo André, ele mostrou estar recuperado das duas lesões que sofrera. Entretanto, ele ainda não reunia condições de disputar toda a partida; seria provavelmente uma opção para o segundo tempo.

Mesmo sem o centroavante disponível para toda a partida, vários jogadores esboçavam uma perigosa confiança: Roberto Carlos, Antônio Carlos e Sérgio declararam abertamente que gostaram de ver que o adversário na final seria o Corinthians e não o São Paulo. Para eles, a derrota por 3 a 0 no segundo turno da primeira fase se deveu a uma forte marcação que o time teria aprendido a evitar. Será?

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Evair queria parar de só treinar.

Evair queria parar de só treinar.

Classificado, com vantagem do empate na final, time azeitado… tudo no Palmeiras era alegria e esperança, certo? Mais ou menos: naquela segunda-feira, Evair reclamou publicamente por não ser relacionado para a partida de despedida do quadrangular contra a Ferroviária.

Pior: ele nem sequer treinou com o restante da equipe; fez apenas trabalhos físicos com o preparador Valmir Cruz. O Matador, que não é de ficar calado, avisou que poderia ser pior ele retornar justo na decisão sem ter atuado um pouco antes. Mesmo assim, Luxemburgo – que ainda não tinha comandado Evair uma vez sequer, já que ele se contundira exatamente na última partida de Otacílio Gonçalves – foi irredutível: quarta, sem chance. Evair ficaria de fora. Assim, ao menos teria um pouco mais de descanso, coisa que não aconteceria com o rival na decisão: a FPF confirmou que Corinthians, São Paulo e Santos jogariam na quinta, um dia após o Verdão. Sendo a primeira partida da final no domingo, o Palmeiras teria um dia a mais de folga.

Evair não seria o único desfalque quarta: Amaral, suspenso, cederia lugar a Daniel. Além disso, Sérgio sentira dor no treino e era dúvida. Mas, claro, nada disso se comparava ao impacto das declarações de Evair, o genioso e genial dono da camisa 9.

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Dá até pra repetir a foto de ontem

Dá até pra repetir a foto de ontem

Tudo o que foi dito no boletim de ontem será desdito hoje: o jogo do Palmeiras contra o Rio Branco, que seria sábado, mudou para domingo. O preço dos ingressos, que seria aumentado somente para compra no dia do jogo, foi majorado (em 50%) também para compra antecipada – e esta alteração só valeu para o Verdão; todos os demais clubes cobravam menos no tíquete vendido até a véspera.

O que não mudou foi a limpeza dos amarelos, que no caso do Palmeiras zerou os cartões dos pendurados Antonio Carlos, Edinho Baiano, Edílson e Evair. Mas o camisa 9 pelo visto não se aproveitaria muito disto…

Em um choque para a torcida, durante uma partida de futevôlei Evair voltou a sentir a lesão na coxa direita, desta vez em grau mais leve que antes. Mesmo assim, era o suficiente para tirá-lo do jogo de domingo e, provavelmente, de toda a fase semifinal.

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A torcida aguardava para rever essa cena

Num dos raros dias sem jogos – na véspera o time empatara com o Grêmio, no dia seguinte enfrentaria o Guarani – o destaque foi a entrevista do médico do Palmeiras, Nelson Franco, dizendo que a lesão do Matador não era tão grave quanto se estimara, mas ainda assim faltavam 10 dias para ele voltar a treinar com bola. À equipe, a previsão era de só retornar contra o XV de Piracicaba, na última das quatro partidas que o Verdão ainda teria na primeira fase.

Para o confronto com o Bugre, a baixa seria Jean Carlo, suspenso. Mas Edílson, que não enfrentou o Grêmio, deveria retornar ao líder do campeonato.

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De molho

De molho

O tamanho do prejuízo do Palmeiras na derrota para o Mogi começava a ficar claro na sexta-feira: a lesão na coxa direita de Evair não era pequena, e a previsão dos médicos era de ausência por 30 dias. A primeira fase do Paulista havia acabado para o camisa nove, assim como provavelmente a briga pela artilharia.

Edmundo, por seu lado, ainda lamentava a expulsão da véspera – a segunda da semana. Mas isso é meio modo de dizer, já que o motivo do cartão vermelho foi pisar em um adversário caído…

Enquanto isso, Otacílio Gonçalves pensava em como montar o time sem a dupla para enfrentar o desgastado São Paulo, que na quinta jogara contra o Rio Branco do Acre pela Copa do Brasil com time reserva e nesta mesma sexta 16 perderia para o Ituano com os titulares. Na verdade, não havia muito o que pensar: as únicas alternativas sem alterar demais o esquema do time eram Jean Carlo e Maurílio. A Parmalat já pensava em contratar um novo atacante, pois Sorato vinha se recuperando lentamente (atuara pelos aspirantes na preliminar do jogo contra o Mogi) e Magrão havia sido emprestado 15 dias antes para o Araçatuba.

Se escolher os substitutos de Evair e Edmundo parecia até simples, por outro lado resistir à pressão não o era. Mesmo assim, Chapinha deu sua entrevista normalmente, jogando a pressão do clássico para o vice-líder e dizendo que derrotas como a da véspera eram naturais em um campeonato tão difícil quanto o Paulista (nota do redator: não riam. Na época realmente os times do interior não eram frágeis como hoje…). Seraphin del Grande deu seu apoio, assegurando que a diretoria estava satisfeita com o trabalho da comissão técnica.

E assim, sob um verniz de aparente normalidade, o Palmeiras tentava retomar a tranquilidade perdida.

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EP93_SEPxMOG

Sequência de vitórias, liderança do campeonato, melhor ataque, melhor defesa, invencibilidade nos clássicos: tudo o que o Palmeiras diligentemente construiu durante os primeiros três meses do campeonato veio abaixo na noite de quinta-feira.

As crises abafadas vieram à tona; o técnico balançava forte; os craques do time estavam fora de combate, e a próxima partida era simplesmente a mais difícil de todo o campeonato. O velho filme que todo palmeirense vivia desde os anos 1980 estava de novo em cartaz, embora desta vez houvesse um ator coadjuvante novo, de nome Parmalat. Conseguiria a recém-chegada parceira servir de esteio nesse momento de enorme turbulência?

Sem os laterais Mazinho e Roberto Carlos, suspensos, Otacílio escalou João Luís e Jefferson. O forte time do Mogi aproveitou as ausências e forçou bastante o jogo pelos lados; bastaram 20 minutos para a brecha aparecer: em falha de Edinho, Leto concluiu para abrir o placar. Foi a senha para o Palmeiras partir desordenadamente ao ataque, para o deleite de Rivaldo, que mandava e desmandava na partida com os contra-ataques que o adversário lhe dava.

Nos cinco minutos finais do primeiro tempo, dois baques, e o gol de Rivaldo nem foi o maior deles: duro mesmo foi um minuto antes ver Evair sair carregado pela maca. Sem grandes alternativas, Otacílio colocou Maurílio, um jogador que não era do maior agrado da torcida. Foi o que bastou para espoucarem os gritos de “buuuuuurro”.

A segunda etapa teve um cenário semelhante, em que um Palmeiras cada vez mais tenso buscava uma luz no fim do túnel. A ajuda veio na forma de outra contusão, mas desta vez do zagueiro Marco Antonio, do Mogi. Mal ele saiu e Jean Carlo, recém-entrado, descontou num chute de fora aos 28. Faltavam quase 20 minutos, o ânimo fora renovado e cinco minutos depois Admílson seria expulso. Agora ia.

Ou não: aos 38 minutos, Edmundo conseguiu seu segundo cartão vermelho em 48 horas (numa descrição cientificamente inédita, a Folha do dia seguinte disse que ele estava “em má fase psicológica”). Acabavam-se as chances do empate, e o Verdão já sabia de antemão que encararia o São Paulo dali a três dias sem seus camisas 7 e 9. O baque só não era pior porque o Tricolor, vice-líder, também perdeu na rodada e nos manteve três pontos à frente.

Após a partida, Otacílio Gonçalves se reuniu com os dirigentes. Parecia o fim da linha, mas ao menos aquela noite ele ainda dormiu no comando do clube. Quem não adormeceu, em compensação, foram milhões de palmeirenses, já antevendo uma nova frustração.

Nota: é uma triste coincidência que o texto de hoje fale sobre um momento de queda do Palmeiras justo hoje, que lamentamos profundamente o acidente e a vida perdida na obra do novo estádio. Mas consideramos que não faria sentido mudar todo o capítulo retirando as metáforas; fica isto aqui registrado para que quem ler este episódio lá na frente lembre-se que neste 15 de abril de 2013 um operário de 34 anos ainda não identificado deixou este mundo enquanto trabalhava pelo futuro do clube.

Ficha Técnica

Gols: Leto 20 e Rivaldo 42 do 1º Tempo; Jean Carlo 28 do 2º

Palmeiras: Sérgio; João Luís, Antonio Carlos, Edinho Baiano, Jéfferson; César Sampaio, Daniel (Jean Carlo), Edilson, Zinho; Edmundo, Evair (Maurílio). Técnico: Otacílio Gonçalves

Mogi Mirim: Mauri, Marco Antônio (Polaco), Ildo, Luís Carlos, Admílson; Capone, Fernando, Válber; Ronaldo (Marquinhos), Leto, Rivaldo. Técnico: Oswaldo Alvarez

Cartões Vermelhos: Admílson e Edmundo

Cartões Amarelos: César Sampaio, Antônio Carlos, Rivaldo e Fernando.

Árbitro: Dionísio Roberto Domingos

Estádio: Parque Antarctica, para 14.670 pagantes com renda de Cr$ 1.380.698.000,00

O dono do jogo

O dono do jogo

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