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Os primeiros campeões

Os primeiros campeões

Esta quinta-feira marca o aniversário de duas conquistas importantíssimas de nosso Alviverde Imponente: os 20 anos do título de 1993, que contamos aqui, e, inversamente, os 93 anos do título de 1920, a primeira de tantas e tantas taças que orgulham o palmeirense. E é deste triunfo, tão essencial quanto desconhecido, que vamos tratar aqui.

O Campeonato Paulista de 1920 começou com um favorito; afinal, o então campeão tinha vencido não só a edição de 1919 como as três anteriores – foi o famoso tetracampeonato do Paulistano até hoje não igualado no Estado (o Santos este ano perdeu a chance de fazê-lo). O time do Jardim América somava sete títulos nas 18 edições disputadas, e ainda por cima contava com o grande craque brasileiro da época, Arthur “El Tigre” Friedenreich.

Ainda assim, havia um rival que parecia ter encontrado um caminho para encarar o bicho-papão: era o Palestra Itália, que até o último jogo da edição anterior estava com chances – em 1919, o último jogo do campeonato foi Paulistano x Corinthians. O Palestra estava um ponto à frente do tricampeão, e portanto torcia para que seu futuro arquirrival vencesse a partida, ou ao menos empatasse, forçando um jogo-extra. Mas os alvinegros perderam por 4 a 1 e com isso impediram que os palestrinos levantassem a taça cinco anos após sua fundação. O alerta, porém, estava dado: os italianos chegaram para valer. E, junto com ele, os já importantes rivais – o Corinthians, terceiro colocado em 1919, também tinha uma equipe competitiva. O pentacampeonato não viria facilmente.

O torneio de 1920 seguiu os moldes habituais de então: 10 times jogando em turno e returno. Só que o Santos decidiu prematuramente abandonar o torneio após apenas sete partidas (entre as quais uma derrota para o Palestra por 3 a 2 e os vexaminosos 0x11 contra o Corinthians que até hoje constituem a pior derrota da história peixeira); foram assim 16 partidas para cada equipe.

A estreia palestrina no certame não poderia ser mais animadora: de cara, um Derby. E, como no primeiro, disputado três anos antes, o clube mais jovem venceu por 3 a 0, dois de Heitor e um de Ministro, na tarde de 25 de abril. Desta forma, a equipe já largava deixando um concorrente para trás, enquanto o Paulistano tinha uma estreia café-com-leite – bateu o Santos, em jogo posteriormente anulado.

Dois dias depois, um fato que impulsionaria o Palestra naquela campanha e, mais que isso, mudaria a história quase centenária do campeão do século: no dia 27 de abril, o clube assinava a compra do Parque Antarctica. A jovem associação tomava fumaças de gente grande.

Para embalar ainda mais, na segunda rodada o tetracampeão teve um surpreendente tropeço ao empatar com o fraco Minas Gerais, que em seguida também foi o segundo time no caminho do Palestra. Ao vencer, o time comandado por Bianco assumiu a liderança. Dali por diante, os favoritos foram atropelando seus adversários um a um – o Paulistano chegou a fazer 12 a 0 sobre a AA Palmeiras, que nos legaria o nome; para não ficar atrás, o Palestra massacrou o SC Internacional por 11 a 0, na nossa até hoje maior goleada em jogos oficiais.

Assim, o primeiro turno teve na última rodada o encontro entre o Palestra 100% e o Paulistano com um ponto perdido. O duelo do Parque Antarctica – assumido de vez pelo Palestra na terceira rodada num 7 a 0 sobre o Mackenzie então associado à recém-fundada Portuguesa – foi disputado, e terminou num empate por 1 a 1 que deixava o time da Água Branca na liderança, mas mantinha o campeonato aberto.

O segundo turno começou com um susto: em pleno Parque Antarctica, o Corinthians levou a melhor por 2 a 1. Era o começo de uma recuperação tardia do arquirrival, que após um fraco primeiro turno venceu todas as partidas da segunda etapa. Nem assim conseguiu o título, pois Palestra e Paulistano tropeçaram pouco.

Muito pouco, aliás: o Palestra só perderia um ponto para as equipes fora da briga, contra o Ypiranga, enquanto o Paulistano largaria dois na derrota ante o São Bento. Com isso, o ainda alvirrubroverde abriria dois de vantagem para o alvirrubro.

E assim Paulistano e Palestra chegaram para a última rodada: os detentores do título com 24 pontos, fruto de 11 vitórias, 2 empates e duas derrotas. Os desafiantes, com 26 unidades, uma vitória a mais e uma derrota a menos. O empate seria suficiente para sua primeira volta olímpica – tradição que, é verdade, ainda não existia.

Mas, no estádio da Floresta, o Paulistano fez valer o sangue-frio de quem sabia ser campeão. Sofreu, mas Friedenreich marcou o gol que bastou para o triunfo e para provocar uma partida-desempate. Por mais uma semana o Palestra permaneceria com sua prateleira vazia.

A partida decisiva teve lugar, óbvio, em 19 de dezembro de 1920. Novamente o duelo, cujo relato pode ser visto aqui e depois aqui, teve lugar na Floresta, mas o resultado final seria outro. O Palestra tomou a iniciativa desde o começo, e, se fosse uma luta de boxe, teria vencido o primeiro tempo por pontos. Mas tratava-se de futebol, e o placar se manteve em zero a zero.

Água mole em pedra dura, entanto, sabemos no que dá, e aos 10 minutos do segundo tempo a cidadela paulistana caiu: Martinelli entrou driblando, bateu cruzado e venceu Arnaldo. Um a zero.

Não deu nem tempo de comemorar: um minuto depois, Mário Andrada chutou forte e Primo nada pôde fazer. Era o empate, e um dos campeonatos mais disputados da história seguia sem dono.

A pressão palestrina era cada vez maior; o Paulistano vivia de esporádicos contra-ataques. E finalmente veio o nocaute: Heitor encontrou Forte, que invadiu em alta velocidade e fuzilou a meta adversária; faltavam ainda alguns minutos, mas na base do bola pro mato o Palestra tratou de impedir qualquer reação tardia. O tempo passou sofregamente, mas enfim o ex-craque alemão Hermann Friese deu a contenda por encerrada.

Naquele minuto, um novo campeão surgiu, mas quem poderia dizer que aquele seria apenas o começo de uma trajetória tão fulgurante?

Hoje, lembramos muito do título de 1993, a cereja no bolo de um ano espetacular. Mas não podemos nos esquecer que a conquista de Evair, Edmundo e companhia talvez não existisse se, naquela tarde de domingo 73 anos antes, uma esquadra agora praticamente desconhecida não tivesse aberto de maneira brilhante a trilha de sucesso que ora tentamos retomar.

Campanha

25/04/1920 – Corinthians 0 x 3 Palestra Itália

09/05/1920 – Minas Gerais 1 x 3 Palestra Itália

16/05/1920 – Palestra Itália 7 x 0 Mackenzie

30/05/1920 – Santos 2 x 3 Palestra Itália (depois anulado)

04/07/1920 – Palestra Itália 4 x 1 A.A.São Bento

18/07/1920 – A.A.das Palmeiras 0 x 5 Palestra Itália

01/08/1920 – Palestra Itália 1 x 0 Ypiranga

08/08/1920 – Palestra Itália 11 x 0 Internacional

15/08/1920 – Palestra Itália 1 x 1 Paulistano

05/09/1920 – Palestra Itália 1 x 2 Corinthians

03/10/1920 – Palestra Itália 0 x 0 Ypiranga

17/10/1920 – Palestra Itália 4 x 0 Mackenzie

31/10/1920 – Palestra Itália 1 x 0 Minas Gerais

07/11/1920 – Internacional 1 x 6 Palestra Itália

15/11/1920 – São Bento 0 x 1 Palestra Itália

21/11/1920 – Palestra Itália 5 x 0 A.A. das Palmeiras

12/12/1920 – Paulistano 1 x 0 Palestra Itália

19/12/1920 – Paulistano 1 x 2 Palestra Itália

Total: 17 jogos, 13 vitórias, 2 empates e 2 derrotas, 55 gols a favor e 9 contra

Ficha Técnica – Paulistano 1 x 2 Palestra Itália

Local: Floresta

Data: 19/12/1920

Árbitro: Hermann Friese

Paulistano: Arnaldo; Carlito e Guarani; Sérgio, Zito e Mariano; Agnello, Mário, Friedenreich, Guariba e Cassiano

Palestra Itália: Primo; Oscar e Bianco; Valle, Picagli e Bertolini; Martinelli, Federici, Heitor, Ministro e Forte

Gols: Martinelli, aos 10, Mário Andrada, aos 11, e Forte, aos 32 minutos do segundo tempo

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EP93_FINAL

E agora eu vou soltar a minha voz: gooooooooooooooooool do Palmeiras!

Não foi apenas José Silvério quem soltou sua voz. Naquele instante, com exatos 9 minutos e 59 segundos da prorrogação, Evair marcou o último gol do Campeonato Paulista e milhões de palmeirenses souberam que o grito tantas vezes reprimido de “é campeão” finalmente podia sair de suas gargantas: o Campeão do Século voltara, o inverno se acabara.

(E até hoje eu ainda não consigo conter as lágrimas ao descrever esse dia)

A partida que nos redimiu começou bem antes de Edmundo (acho) rolar a bola pela primeira vez. Muito antes da execução do Hino Nacional por Agnaldo Timóteo. De mais de 104.000 torcedores afluírem ao Morumbi para verem o mais importante capítulo da vida de torcedor de toda uma geração.

Começou, claro, quando Viola teve a feliz ideia de imitar um porco na primeira metade da decisão. O Palmeiras até perdeu aquela partida, mas o camisa 9 corintiano deu ao Verdão a faísca que faltava para incendiar os últimos 120 minutos de agonia.

Premido pela necessidade de vencer, Luxemburgo colocou um banco ofensivo (com Velloso, Alexandre Rosa, Jean Carlo, Maurílio e Soares). O time inicial era o que vinha jogando, com a necessária troca do suspenso Amaral por Daniel – além, evidentemente, do retorno de Evair aos titulares.

Sérgio; Mazinho, Antonio Carlos, Tonhão, Roberto Carlos; César Sampaio, Daniel, Zinho; Edmundo, Edílson, Evair. Um timaço.

Desde o primeiro minuto ficou nítido quem daria as cartas: com apenas 58 segundos, Edmundo perdeu uma chance incrível. Aos 9’30”, foi Edílson quem invadiu, mas, desequilibrado, não concluiu bem. Três minutos depois, Zinho pegou um rebote de escanteio e chutou em cima de Ronaldo.

Nelsinho percebeu que o crime estava prestes a ser cometido, e tomou uma decisão destemida: com apenas 18 minutos, trocou Adil por Tupãzinho, com o claro intuito de reforçar a marcação. As chances do Palmeiras então escassearam um pouco, mas o time ainda dominava a peleja.

Mesmo assim, quem deu o susto seguinte foi o Timão: aos 32, uma cabeçada de Viola que nem foi tão perigosa assim, mas que quase causou uma parada cardíaca neste então moleque de 15 anos. Foi a última vez naqueles 17 anos em que o Palmeiras esteve ameaçado de perder.

Afinal, a redenção começaria dali a pouco: aos 36 minutos e 41 segundos, Zinho explodiria a metade verde do estádio ao abrir o placar após a bola passar por boa parte do time, a partir do goleiro Sérgio. Com aquele gol, a vantagem na decisão voltava a ser alviverde: se a meta do Palmeiras não fosse vazada, o título viria.

A missão palmeirense ficou um pouco mais fácil minutos após a abertura do placar: aos 39’20”, Henrique fez falta duríssima em Edílson e, já tendo o amarelo, teve que ir para o chuveiro (depois reclamaria do juiz, mas basta olhar o lance que não resta dúvida do acerto na expulsão). Nelsinho já tinha usado uma substituição e, não querendo queimar a segunda, pediu para Ricardo, que vinha jogando na lateral esquerda, ficar na zaga. Do ponto de vista alvinegro, foi uma atitude corretíssima, como se verá.

Antes do intervalo, houve ainda a famosa voadora de Edmundo em Paulo Sérgio, que não foi muito diferente do que os jogadores do rival, particularmente Ricardo, já tinham feito com nosso camisa sete por toda a primeira etapa. O fato é que o primeiro tempo se encerrou com vantagem verde no placar, no número de jogadores e no ânimo da ainda escaldada torcida.

Após um minuto de silêncio em homenagem ao pai do zagueiro alvinegro Marcelo, a segunda etapa começou com o Corinthians mais bem postado em campo. Com um a menos prematuramente, o time sabia que levar a partida para a prorrogação era forçar um desgaste desfavorável, e portanto, já que tinha que marcar um gol, melhor que fosse no tempo normal.

A estratégia acabou barrando na boa atuação da zaga palmeirense, e pouco a pouco o Verdão começou a reagir, até chegar a um ponto crucial na história do Palmeiras: após um drible de Tonhão (!), uma arrancada de TONHÃO (!!), seguida por um lançamento perfeito de trivela para Edmundo de TONHÃO (!!!), Ronaldo derrubou o Animal, que vinha sozinho, e ganhou um cartão vermelho de presente. Numa aula de malandragem (temos que reconhecer, ele foi brilhante), o camisa 1 fingiu ter sido agredido e conseguiu ao menos levar embora com ele o camisa 4 do Verdão. Não faz mal: Tonhão saiu do campo para entrar para a História. Ele ainda faria mais 87 partidas pela equipe, mas poderia ter se aposentado em glória naquele instante.

O Corinthians foi obrigado a fazer sua segunda alteração – já pensaram se Nelsinho tivesse mexido após a expulsão de Henrique? O time seria obrigado a atuar o resto do tempo com um jogador de linha no gol. Assim, o mesmo Tupãzinho que entrara no lugar de Adil deu lugar a Wilson “Macarrão”, que quase 11 anos depois seria técnico interino do Palmeiras.

Vendo o adversário com apenas 8 na linha, Luxemburgo arriscou manter a equipe sem sacrificar um de seus atacantes para colocar Alexandre Rosa. Foi arriscado: mesmo com nove contra dez, o Corinthians mostrava brio e volta e meia ameaçava. Mas também foi certo: permitiu o golpe que praticamente garantia a prorrogação.

Zinho roubou bola em nosso campo, praticamente dentro da área, e desceu rapidamente; vários jogadores o acompanharam. Foi assim que, ao tirar a bola de Evair, a zaga alvinegra não conseguiu afastar, e botou a bola no pé de Mazinho. O lateral direito arrancou pela esquerda, deixou seus marcadores deitados ou perplexos e rolou para Evair, aos 28 minutos e 57 segundos, marcar o segundo gol, o gol que mostrou que qualquer resto de equilíbrio acabara: o Palmeiras era senhor da decisão. E assim caiu o longo jejum de Evair, que ficou fora muito tempo por lesão: a última vez que o Matador fora às redes havia sido dois meses e um dia antes, contra a Portuguesa.

2a0

Sabendo que não marcaria os dois gols que lhe dariam o título diretamente, o Corinthians tomou a decisão óbvia: diminuiu o ritmo à espera da prorrogação, quando lhe bastaria um. O Palmeiras evidentemente fez o mesmo, e os 20 minutos finais do segundo tempo só não passaram despercebidos porque houve ainda mais uma estaca cravada no rival: em meio a muitos gritos de “Palmeiras” e alguns tímidos de “olé”, Antonio Carlos lançou Daniel, que entrou rápido na área, deixou Marcelo sentado mais uma vez e centrou para Evair, que escolheu o canto mas jogou no pé da trave. Rápido como uma flecha, Edílson encheu o pé no rebote e, aos 38 minutos e 18 segundos, marcou o terceiro. Um tento que, se não mudava a história do jogo, valeu por construir a goleada. E que foi um prêmio ao provavelmente melhor jogador palmeirense em toda aquela campanha (é isso mesmo: temos pinimba do Capetinha pelo que fez no rival, especialmente a final de 1999, mas é justo reconhecer – ele contribuiu muito, muito mesmo, para que hoje possamos falar sobre 1993).

O resto do tempo normal prosseguiu sem maiores emoções (mentira, cada minuto que passava trazia um sentimento cada vez melhor), e os oponentes se alinharam para a prorrogação. A batalha final.

Logo ficou claro para qualquer espectador isento – palmeirenses e corinthianos estavam nervosos demais para racionalizar o que fosse – que o time do Parque São Jorge dependeria mais da sorte que de bola. Porque essa estava o tempo todo nos pés verdes.

O massacre foi amplo: aos 2, bela jogada de Edmundo e Edílson perdeu um gol incrível. Aos 4, Edmundo mandou pra fora. O Corinthians tentou responder aos 7, quando Viola invadiu a área, gingou, mas o chute foi bloqueado.

A resposta foi fulminante: vinte segundos depois, Edmundo era derrubado na área por Ricardo. Pênalti que José Aparecido de Oliveira assinalou incontinenti. Pênalti após o qual o mundo seria um lugar melhor.

Antes de Evair tomar a bola para si, deu tempo para Ezequiel ser expulso por reclamação. Reduzido a oito e vendo o camisa 9, que pelo Palmeiras jamais falhara numa cobrança da marca fatal, ir para a bola, o Corinthians sabia que sua sorte estava selada. Dificilmente a vingança de 1974 se concretizaria.

E Evair não decepcionou.

Dali para a frente, dizem que o já eterno ídolo foi substituído por Alexandre Rosa, e Edílson por Jean Carlo. Pode ser. Àquela altura eu já estava em outro plano, mergulhado nos sonhos alimentados durante anos que por fim se tornavam realidade. Só sei que voltei à Terra mais ou menos na hora em que Luxemburgo cumprimentava Nelsinho e ia para o vestiário, naquele gesto de, hmmm, humildade calculada.

Poucos segundos depois, acabava a partida, acabava o campeonato, acabava o pesadelo. E a festa explodiu no estádio, na cidade, em vários pontos do país.

E, naquele dia dos Namorados, finalmente essa nossa imensa paixão que é o Palmeiras voltava a ser correspondida.

campeao1993

*

Não curtiu muito a narração do Luiz Alfredo? Então reviva aquele jogo com outras vozes:

José Silvério

Silvio Luiz (a que eu acompanhei)

Fiori Gigliotti (pena não ter outras)

Osmar Santos

*

É evidente que o Palmeiras não foi campeão somente naquele dia. O título foi o resultado de uma bela campanha que consistiu em 38 jogos, com 26 vitórias, 6 empates e 6 derrotas, 72 gols a favor e 30 contra, saldo de 42.

Trouxemos nos últimos meses um resumo de toda esta campanha. Confira aqui todos os jogos que nos levaram ao fim do jejum, além de alguns outros momentos marcantes desta inesquecível trajetória.

O cenário

Primeira fase – 1º turno

Primeira fase – 2º turno

Quadrangular semifinal

Final

*

Alguns jogaram muito, outros só alguns minutos. Mas todos estes 25 jogadores e 3 treinadores entraram para a história do Palmeiras:

Goleiros

  • Sérgio Luiz de Araújo (35 jogos, 26 gols sofridos)
  • Wagner Fernando Velloso (4 jogos, 4 gols sofridos)

Laterais

  • Iomar do Nascimento, Mazinho (36 jogos, 1 gol)
  • Roberto Carlos da Silva (33 jogos, 4 gols)
  • João Luís Barbosa (19 jogos)
  • Jefferson Vieira da Silva (5 jogos, 1 gol)
  • Cláudio Guadagno (2 jogos)

Zagueiros

  • Antonio Carlos Zago (34 jogos, 2 gols)
  • Antônio Carlos da Costa Gonçalves, Tonhão (17 jogos)
  • Édson Manoel do Nascimento, Edinho Baiano (23 jogos, 1 gol)
  • Alexandre Ricardo Rosa (9 jogos)

Meias

  • Carlos César Sampaio Campos (34 jogos, 4 gols)
  • Daniel Frasson (25 jogos, 1 gol)
  • Crizam César de Oliveira Filho, Zinho (36 jogos, 9 gols)
  • Edílson da Silva Ferreira (35 jogos, 11 gols)
  • Alexandre da Silva Mariano, Amaral (11 jogos)
  • Jean Carlo de Souza (26 jogos, 4 gols)
  • Juliano César de Moraes Tobias, Juari (3 jogos)
  • José Aparecido Pereira, Naná (1 jogo)

Atacantes

  • Evair Aparecido Paulino (24 jogos, 18 gols)
  • Edmundo Alves de Souza Neto (34 jogos, 11 gols)
  • Cléverson Maurílio Silva (25 jogos, 4 gols)
  • José Carlos Soares (3 jogos, 1 gol)
  • Aguinaldo Luiz Sorato (2 jogos)
  • Paulo Sérgio Gonzatti (1 jogo)

Técnicos

  • Wanderley (grafia da época) Luxemburgo da Silva (14 jogos, 12V/2D)
  • Otacílio Gonçalves da Silva Júnior (23 jogos, 14V/6E/3D)
  • Raul Pratali Filho (1 jogo, 1D)

palmeiras-1993

*

Ficha Técnica

Gols: Zinho 36 do 1º Tempo; Evair 28 e Edílson 38 do 2º Tempo; Evair aos 9 do 1° tempo da prorrogação

Palmeiras: Sérgio, Mazinho, Antônio Carlos, Tonhão e Roberto Carlos; César Sampaio, Daniel e Edílson (Jean Carlo); Edmundo, Evair (Alexandre Rosa) e Zinho. Técnico: Wanderley Luxemburgo

Corinthians: Ronaldo, Leandro Silva, Marcelo, Henrique e Ricardo; Ezequiel, Marcelinho Paulista e Neto; Paulo Sérgio, Viola e Adil (Tupãzinho, depois Wilson). Técnico: Nelsinho Baptista

Cartões Vermelhos: Henrique, Ronaldo, Tonhão e Ezequiel

Cartões Amarelos: Roberto Carlos, Mazinho, Zinho, Edmundo, Marcelo, Leandro Silva e Neto

Árbitro: José Aparecido de Oliveira

Local: Morumbi, para 104.401 pagantes e renda de Cr$ 18.154.900.000,00.

Palmeiras Campeão Paulista de 1993

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As capas do dia seguinte (notem a do Estadão: é uma raridade que a manchete principal seja esportiva)

Capa Estadão

Capa Folha

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Prontos para a batalha final

Prontos para a batalha final

Os treinos acabaram. As orientações táticas eram menos importantes que os gritos de guerra. Tudo que poderia ser aprendido e exaustivamente ensaiado já o fora, e seria posto à prova no dia seguinte.

Em 24 horas, o céu ou o inferno.

O último treino teve um pouco de tudo: posicionamento da defesa, saída de jogo e jogadas ofensivas. Era necessário reverter a desvantagem no placar. E, como o título para o Palmeiras necessariamente passaria por uma prorrogação, a questão física não foi deixada de lado.

E, como só técnica não bastaria num jogo como esse, Luxemburgo decidiu trazer sua equipe para treinar em São Paulo mesmo. Assim, na Academia de Futebol, eles já sentiriam o clima que se armava: mais de mil torcedores fizeram batucada.

Naquela noite, seria decidido também o juiz, mas apenas o escolhido saberia disso; a informação seria escondida, como vinha sendo hábito naquele Paulistão. Os nomes mais cotados eram os de João Paulo Araújo, Oscar Roberto de Godói (malquisto por ambas as equipes) e José Aparecido de Oliveira. Quem quer que fosse, teria uma dura missão. Corintianos, vencedores no primeiro prélio, e palestrinos, confiantes em sua técnica, estavam otimistas, e sabiam da importância daquela conquista. Seria sem dúvida um jogo ríspido.

Afinal, só um deles terminaria contente o sábado. Que fosse então o fim da longa e escura noite alviverde.

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Antônio Carlos: o terceiro gol começou com ele.

Antônio Carlos: o terceiro gol começou com ele.

Quinta-feira, dia do penúltimo treino em quase dezessete anos de jejum, desta vez em Bragança Paulista, pois em Atibaia havia muitos cururus à beira do gramado. Na véspera, o Palmeiras havia treinado o posicionamento da defesa nas cobranças de falta de Neto; desta vez, foi o contrário: cobranças de falta a favor, para quem sabe ferir o adversário com suas próprias armas. Também optou por testar um forte avanço dos laterais, especialmente Mazinho (que, por estar no Verdão por empréstimo que se encerraria no mês seguinte, tinha uma carreira em jogo).

Como se viu dois dias depois, tais treinamentos não tiveram muita utilidade: não foi a bola parada que nos fez vencer, nem que tirou a chance do rival. E as laterais foram mesmo um ponto forte do time, mas a jogada do camisa 2 que terminou nas redes foi… pela esquerda.

Uma outra arma testada, porém, foi eficaz: os lançamentos de Antônio Carlos desde a intermediária para o trio de atacantes. Durante a partida, porém, quem recebeu o bom lançamento foi Daniel, e dali saiu o terceiro gol. No ano seguinte, foi assim que saiu também o gol de empate na decisão do Brasileiro contra o mesmo Corinthians, o que certamente é mais uma curiosidade do que fruto daquele treinamento no interior.

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Convocados

Convocados

Precisando vencer para provocar a prorrogação, o treino de quarta do Palmeiras focou… na defesa. Aparentemente confiando no poder de fogo de seu ataque, que não costumava passar em branco duas vezes seguidas, Luxemburgo treinou muito o posicionamento da zaga para prevenir novas surpresas em cobranças de falta de Neto, como a que decidiu a primeira partida.

Como uma espécie de incentivo ao time, Paulo Serdan, presidente da Mancha, declarou que não se responsabilizaria pelo que ocorresse aos jogadores se a fila prosseguisse após o sábado.

Para compensar, a convocação da Seleção Brasileira para a Copa América encheu de alegria o elenco palmeirense; afinal, seis foram chamados: Antonio Carlos, Roberto Carlos, César Sampaio, Edílson, Zinho e Edmundo.

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Titular na hora decisiva

Titular na hora decisiva

Depois da folga na segunda, uma carraspana na terça. Luxemburgo não esperou o treino e foi direto ao ponto: no vestiário (mas alto o suficiente para a imprensa do lado de fora ouvir), falou por meia hora cobrando mais empenho da equipe. Afinal, se o Palmeiras era reconhecidamente melhor que o Corinthians, como podia ter perdido? Motivação e vergonha na cara, segundo o técnico.

Após a bronca, os jogadores ao menos publicamente disseram que a crítica foi justa. E rapidinho embarcaram no ônibus que os levaria novamente a Atibaia, para os últimos treinos antes da grande final – na qual Evair fora confirmado como titular, bem como Daniel, substituto do suspenso Amaral.

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Um time habilidoso contra a pressão. Os milhões da Parmalat contra os fracassos de anos. Jogadores de seleção contra a seca de títulos. E, claro, um gigante paulista contra outro.

No primeiro round da decisão do Paulistão 1993, todos os traumas de dezessete anos de inglórias vieram à tona para os palmeirenses. O obstinado elenco corintiano, que já tinha deixado pelo caminho o então campeão mundial, venceu por 1 a 0 e passou a ter a vantagem de buscar apenas um empate no sábado seguinte. O rival tinha a grande chance de vingar 1974.

Ciente de que eram inferiores na técnica, os alvinegros ganharam na luta e na tática. O catenaccio corintiano aprisionou o time alviverde de tal forma que Edmundo ficou enredado por Marcelo e Ricardo, Edílson foi dominado por Ezequiel e Zinho parou em Leandro Silva. Os laterais não subiam, e Maurílio, bom, a natureza dava conta (e Mauricio estava de sobreaviso).

Apenas marcar cuidadosamente não bastaria ao Corinthians, que afinal de contas teria que ganhar uma das duas partidas. Mas a sorte sorriu logo aos 13 minutos, quando Viola, que acreditou numa bola quase perdida, se atirou para escorar cruzamento de Neto, vencer Sérgio e fazer o que seria o único gol do jogo.

A comemoração ficou famosa: Viola nem se levantou direito para comemorar; agachou e imitou um porquinho. Foi um golpe duro para os palmeirenses, que jamais o perdoariam, mesmo quando ele vestiu nossa camisa.

O cenário agora estava ao feitio do alvinegro. O Palmeiras tinha a bola, mas não furava o bloqueio rival. Até o fim do primeiro tempo, houve apenas uma chance mais clara, em chute de Edmundo que Ronaldo agarrou.

Era necessário um fato novo para modificar o panorama da partida, e ele veio no intervalo: numa mudança esperada desde o começo da semana, Maurílio deu lugar a Evair. A equipe melhorou, e logo Zinho e Edilson tiveram chances. César Sampaio se lesionou e Jean Carlo entrou, aumentando ainda mais a pressão. Tonhão, Edmundo e Jean Carlo desperdiçaram oportunidades. Evair, meio sem ritmo, não teve sua vez, mas chamava atenção de toda a zaga rival.

Aí Moacir e Amaral se estranharam. Cartão vermelho para os dois. O Palmeiras ficou sem nenhum volante, e o Corinthians, cioso da vantagem, trocou Neto por Marcelinho (o futuro “Paulista”) e manteve o ferrolho.

Desgastado e sem marcação eficiente, o Verdão começou a ceder terreno e ambos começaram a trocar golpes. O Palmeiras se atirava, já que saldo de gols era irrelevante – o famoso “perdido por um, perdido por mil”. E assim o adversário criou, mas também não fez, até a hora de decidir que estava bom assim, e que era bobagem tentar algo mais.

O Corinthians se trancou e conseguiu fazer o ataque verde passar em branco. A superação alvinegra assustou a torcida palmeirense, que vivia um momento de otimismo só comparável ao de 1986. Difícil saber qual decepção seria maior, caso o fracasso se concretizasse dali a uma semana…

Ficha Técnica

Gol: Viola aos 13 do 1º tempo

Corinthians: Ronaldo, Leandro Silva, Marcelo, Henrique e Ricardo; Ezequiel, Moacir e Neto (Marcelinho Paulista); Paulo Sérgio, Viola e Adil (Tupãzinho). Técnico: Nelsinho Baptista

Palmeiras: Sérgio, Mazinho, Antônio Carlos, Tonhão e Roberto Carlos; César Sampaio (Jean Carlo), Amaral e Edílson; Edmundo, Maurílio (Evair) e Zinho. Técnico: Wanderley Luxemburgo

Cartões vermelhos: Moacir e Amaral

Cartões amarelos: Marcelo, Edmundo, Leandro Silva, Evair, Tupãzinho e Neto

Árbitro: Dionísio Roberto Domingos

Local: Morumbi, para 93.736 pagantes e renda de Cr$ 15.789.250.000,00

edmundo

Edmundo lutou, mas o Palmeiras saiu atrás na decisão

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